Domingo, Abril 18, 2010

meu relógio

Saiu do banho, precisava de um banho, fazia tempo que a alma pedia água.
Juntou a roupa suja, se esgueirou até a lavanderia e jogou tudo na máquina, pendurou a toalha e foi até a sala.
A sala estava iluminada só pela luz da lua que entrava pela janela da frente, e mais algumas luzes dos prédios vazios, e ali estava ele sentado no escuro, olhando para fora.
Ela caminhou até ele com passos de felina, e se esgueirou até o sofá, e sentou longe dele.
Olhou para ele, devia estar uns dez quilos acima do peso, tinha entradas horríveis, e uns óculos que o davam mais anos do que ele realmente tinha.
As mãos estavam todas machucadas, justos as mãos que ela gostava tanto, eram marcas e rispidez.
Ele olhava fixamente para frente, enquanto levava o cigarro a boca, sem vontade.
Colocou então caprichosamente os pés no sofá, sentando em cima deles e pediu o isqueiro.
Ele apenas estendeu a mão passando o isqueiro, sem olhar para ela.
Ela acendeu o cigarro, deu um trago meia vida ficou passando as mãos no cabelo, olhando para fora, imaginando a vida das pessoas nos outros apartamentos, será que as mulheres se sentiriam como ela? Permaneceu assim.



Foi de passo apressado até o vestiário, trocou o uniforme sujo pela roupa juntou tudo na mochila e se despediu do pessoal do trabalho. Entrou no carro fumou um cigarro enquanto esperava o carro esquentar pensando em milhares de possibilidades diferentes, acelerou e saiu.
Abriu o apartamento sob o olhar bonachão da vizinha do lado, até ensaiou um sorriso tímido para retribuir, um fiasco como sempre.
Entrou deixou a mochila na cozinha em cima da cadeira, e foi de cômodo em cômodo; nada.
Começou a sentir triste, e foi tomar um banho, um banho haveria de resolver, depois se trocou talvez precisasse sair, foi até a sala e sentou no sofá, o melhor lugar do mundo para observar o por do sol, está ai algo para se orgulhar de uma vida de trabalho, um por do sol privilegiado.
Acordou algum tempo depois com o barulho do trinco, se ajeitou no sofá e esperou ela entrar.
Mas dela só o barulho dos saltos batendo no piso de madeira e um cheiro forte de perfume.
Ouviu a porta do banheiro bater, e esperou sem dizer nada.
Algum tempo depois ela saiu mais perfumada como antes, e linda como sempre haveria de ser quando ela saísse do banho.
Ela sentou próximo dele e ele sentiu que ela o olhava, mas fingiu não perceber.
Ali ficaram fumando sem dizer nada.
Ele começou a sentir os olhos se encherem d água, mas segurou firme.
De novo não.
Ela se achegou a ele, e deitou no seu colo.
E ali ficaram até altas da madrugada, ele engolindo o choro, e ela engolindo o mundo.
Era domingo.

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